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Socialização e individuação

 

Permita-me atrair sua atenção sobre este recente texto de Maria da Graça Jacintho Setton. Trata-se de um estudo sociológico bem escrito e particularmente interessante sobre a trajetória de um personagem denominado no texto como Antonio. O estudo se inscreve, por meio de uma exaustiva história de vida, na confluência do que se pode denominar uma sociologia da socialização plural dos indivíduos e uma sociologia dos processos estruturais de individuação. O projeto de articular estas duas vias de análise já é por si só um dos grandes aportes e originalidades do manuscrito.

 

O estudo mostra, a partir de uma única trajetória individual, a maneira como um grande número de processos estruturais, sobretudo de índole escolar e cultural, marcam profundamente as experiências e os horizontes de vida de Antonio. Assim, o leitor navega constantemente, e sem dificuldades, entre dimensões ‘macro’ e ‘micro’, entre o processo de socialização de uma geração e as experiências socializadoras específicas de um indivíduo, e ainda entre a articulação de processos locais e nacionais.

 

A partir deste estudo de caso, o manuscrito propõe uma reflexão sobre o que a autora denomina de modelo híbrido e que, de seu ponto de vista, seria um modo específico de socialização na sociedade brasileira atual. Para a autora, trata-se da incorporação e da formação de um ‘habitus’ que, de maneira cotidiana e sem maior crise, permite aos indivíduos enfrentar um conjunto diferenciado de desafios, articulando diferentes horizontes de valores.

 

É a tese central do livro. Diferentemente do que sinaliza a sociologia francesa há décadas e que tende a sublinhar as ‘crises’ associadas à existência de experiências plurais ou híbridas, ou seja, em termos de histerias ou neuroses de classes, o que seria comum a muitos transgressores de classe , o manuscrito mostra como estes aspectos, inclusive quando aparecem na experiência de Antonio, ganham um olhar distinto sob o marco da sociedade brasileira. A principal conclusão do estudo empírico apresentado é, pois, que as múltiplas socializações secundárias e suas possíveis contradições culturais não geram os mesmos efeitos subjetivos em distintas sociedades e períodos. Uma proposição que, a partir de um trabalho empírico e com aportes específicos, pode ser lida no marco dos distintos ensaios clássicos realizados há várias décadas sobre a especificidade da individualidade brasileira.

 

Danilo Martuccelli

Universidade Paris Descartes – Cerlis (CNRS)

 
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