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Manifesto Convivialista Edição Brasileira

 

Mais um manifesto?

 

Imaginemos um mundo perfeitamente convivial! Teríamos uma democracia direta, mais participativa do que representativa. Graças às novas tecnologias peer to peer, o modelo grego seria levado a uma nova escala, “glocal”. A economia seria plural, definitivamente extirpada do binômio mercado/estado e, novamente, enraizada no mundo da vida, com predominância dos serviços de proximidade e de solidariedade. Todo mundo (inclusive os ricos) receberia uma bolsa família. Assim, trabalhar não seria mais uma necessidade, mas uma opção de cada um. Numa sociedade na qual se trabalha menos para viver mais e melhor, as relações sociais seriam de colaboração e cooperação, e não de predação e competição. Conscientes da sua responsabilidade social, as corporações aceitariam de bom grado investir parte dos seus lucros nos setores sociais, culturais e ambientais. Os recursos seriam mutualizados e seu uso seria pautado pelos princípios da austeridade autoimposta, marcada por um consumo reflexivo e moderado. Aliás, a produção, ela mesma, ver-se-ia convertida aos axiomas de um decrescimento controlado. A publicidade não existiria mais enquanto tal, mas seria transformada em agência pública de desenvolvimento sustentável. A produção intelectual seria transnacional, enquanto as ideias seriam “pluriversais” e – emancipadas de seus ativismos pós e neocoloniais – coproduzidas através de sinergias espontaneamente cosmopolitas. O PIB não mais mediria o desgaste coletivo, mas o bem-estar de todos e a felicidade de cada um. Em resumo, o projeto milenar e universal da boa e bela vida com e para os outros, em instituições justas num mundo cosmopolita e num  ambiente sustentável, seria finalmente realizado.

 

O irrealismo deste mundo ideal é patente. Nem é preciso ser mal-intencionado para ver que o “convivialismo” – essa contração inventada por Ivan Illich (1973) nos anos setenta, e formada pela aglutinação dos termos convivium (banquete), bonum vitae (boa vida ou eudemonia) e con-vivere (viver juntos) – é uma utopia da cordialidade. Reativada recentemente por um punhado de intelectuais francófonos oriundos da ecologia política, da alter-economia e da antropologia da dádiva, a sociedade convivial pareceria, então, mais uma dessas comunidades retrógradas descritas por Marx e Engels nas últimas páginas do Manifesto Comunista. Como tantas outras “edições de bolso da nova Jerusalém” (Marx e Engels, 1972: 491), o Manifesto convivialista (doravante, Manifesto) teria caído nas armadilhas das grandes utopias da pequena burguesia (europeia). Afinal de contas, sempre haverá de lidar com o questionamento sobre se é cabível lutar contra todas as injustiças do colonialismo e do capitalismo (da escravidão à exploração) e todas as patologias sociais (da alienação à anomia) apenas com bons sentimentos. Se tudo fosse tão simples, não somente não estaríamos diante de mais uma crise da civilização, como também sequer seria oportuno publicar mais um manifesto.  

Jean-François Véran e Frédéric Vandenberghe
manifesto_convivialista
Manifesto Convivialista: declaração de interdependência - Edição brasileira comentada
Fréderic Vandenberghe (organizador)
Formato: 14x21cm, 293 páginas
 
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