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O caso Bruna

 

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O caso Bruna: gênero, transexualidades e opinião pública
Ubirajara de None Caputo
Formato: 14x21 cm, 172 páginas
ISBN: 978-85-391-0881-7

Travestis e mulheres transexuais fazem uma manifestação pelo direito de uso de banheiros femininos abertos ao público em um shopping center de São Paulo. O ato tem repercussão num site de notícias de grande circulação, provocando a
reação de centenas de leitores.

Ubirajara Caputo analisou as opiniões deste conjunto de populares, em sua maioria contrária ao direito de uso motivada por concepções religiosas e sociais ou por atribuir às pleiteantes caráter duvidoso e aspectos distorcidos de saúde e corpo. Entre as mensagens enviadas ao site, se sobressaem aquelas que propõem ações de extermínio tanto simbólico quanto físico, aproximando-se do discurso nazista da primeira metade do século XX.

Resulta uma investigação consistente e pulsante sobre os elementos subjetivos e socioculturais que estruturam o preconceito, em especial quando relativos à sexualidade e à expressão ou identidade de gênero.

 

O despreparo da escola e da família e o acolhimento pelo meretrício

Por Ubirajara Caputo

 

Destacam-se duas características fundamentais no processo que resultou no ostracismo social de Bruna: o despreparo da escola e da família em lidar com sua delicadeza e o acolhimento pelo meretrício como única opção de sobrevivência. As famílias costumam experimentar sensação de fracasso e vergonha pelos entes que julgam anormais. A escola, salvo poucas exceções, não prepara bem os alunos para lidarem com a diversidade. Nem de pensamento, nem religiosa e nem sexual. Ao contrário, o ambiente escolar (incluindo professores, currículo, métodos e recursos) é fortemente policiado de modo a formar cidadãos que possam adaptar-se e reproduzir ideias e valores daqueles que o policiam. Talvez a prova mais explícita dessa vigilância tenha sido a suspensão da distribuição, por exigência do setor conservador do Congresso Nacional, de material contra homofobia que seria entregue aos professores do ensino médio de escolas públicas, em 2011, pelo Ministério da Educação, sob a alegação de que seria temerário fazer, nas palavras da presidente da república Dilma Rousseff, “propaganda de opção sexual”.

 

O acolhimento social que Bruna poderia ter recebido dos órgãos oficiais de proteção à criança e ao adolescente, a levaria a ser recolhida das ruas, mas a obrigaria a conviver em ambiente possivelmente pior do que o de sua escola. O acolhimento pelo meretrício, nesses casos, é comum e certamente constituiu uma experiência, não necessariamente boa ou má, mas marcante em sua vida. Não é possível saber se Bruna teria, ou não, se tornado uma travesti caso tivesse tido outras condições de vida. Tampouco importa querer sabê-lo no intuito de descobrir se teria sido possível evitar que isso acontecesse, já que não cabe juízo de valor a qualquer situação de transgeneridade. Entretanto, é preciso ter em conta que essas condições de vida fazem parte de uma problematização que resultou na forma como Bruna expressa sua autopercepção de gênero, isto é, na sua travestilidade. As condições familiares, educacionais e sociais da infância e adolescência de Bruna integram um processo que faz com que pessoas como ela saudáveis, capazes (ou capacitáveis) e probas sejam apartadas da vida em sociedade e confinadas a condições mínimas de sobrevivência. Investigar esse processo é tarefa necessária para entender, ainda que parcialmente, o preconceito que lastreia uma situação de vida tão desfavorável para aqueles(as) que apresentam ambiguidade de gênero.



A visão da sexualidade como opção e a ideia de risco de contágio foram desenvolvidas no século XIX, quando desejar sexualmente alguém do mesmo sexo era considerado doença.

Neste estudo, adotou-se o termo transgeneridade para expressar a condição de pessoas transgêneras e intersexuais, indistintamente.

 
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