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editorial novembro de 2018

 

A produção da Annablume tem dois focos: informar os próprios pares acadêmicos da produção da Universidade e levar esta informação para fora da Universidade, estabelecendo um diálogo.

 

Mas o que há de singular nesta mensagem que a Universidade pode trazer à sociedade? Esta resposta está ligada ao papel desempenhado pela Universidade em nossa sociedade hoje. O Vladimir Safatle tem uma leitura muito lúcida sobre isto. Ele contou, no primeiro encontro Universidade: Misérias do Presente, Riqueza do Futuro que, enquanto a sociedade brasileira tinha certa mobilidade social, enquanto havia ainda algum sentido meritocrata para uma pessoa ter ascensão social, a Universidade tinha um reconhecimento social forte. Ela desempenhava o papel do elevador, que possibilitava a criação do doutor, aquele que ralou, estudou muito e assim atingiu sua meta. Independentemente se era rico ou pobre, mas claro, sem se esquecer das distorções sociais do país e quanto se gastava de energia especialmente para sair do subsolo. Isto neste século XXI acabou. A sociedade brasileira, acompanhando o capitalismo internacional, cada vez mais é uma sociedade de castas. Quem é rico, é rico e será rico. Com filhos e netos ricos. Eu sempre penso, nesta situação, no caso do Banco Itaú. Quando eles anunciam no balanço de 2017 que tiveram 24 bilhões de lucro, fico imaginando que um acionista tenha, por exemplo, 10% das ações do banco: ele ganha um bônus de 2,4 bilhões de reais. 12 bilhões em cinco anos, 24 bilhões em 10 anos. Essa é a ordem de grandeza da riqueza hoje. Já quem é pobre, será sempre pobre, oscilando para cima e para baixo na linha de pobreza, conforme as migalhas que escapam aos ricos quando os preços das comodities estão altos no mercado internacional. É uma disparidade que só enrijece as diferenças sociais.

 

Assim, sob certo ponto de vista, o papel da Universidade entrou em cheque. Se não é mais o elevador social, por que se gastar tanto com esta instituição? Se é para ser apenas técnica, formadora de mão de obra especializada e produtora de tecnologia para grandes grupos, melhor que viva como um apêndice do mercado.

 

Mas eu acredito que é exatamente esse momento de questionamento social da Universidade que é o momento de sua emancipação desta lógica perversa. A Universidade pode e deve ser o espaço da renovação social. Nossa sociedade precisa de novos ares, novas possibilidades de viver e conviver. A ordem social imposta sobre nós gera toda esta violência, entre outros motivos porque não permite que se pense e se trabalhe por novas formas de convívio. E as atuais estão falidas. As instituições sociais que vinham fazendo esta renovação até o final do século passado estão enfraquecidas. Os movimentos sociais, as ONGs, os sindicatos perderam muito de sua força. E a Universidade, por sua vocação histórica de centenas de anos de lidar com o conhecimento de uma forma independente, pode, agora que tem a possibilidade de se livrar de ser o elevador social, cumprir um outro papel – que não abastecedora de mão de obra qualificada e de tecnologia para o mercado – fornecendo novas utopias sociais e, principalmente, dando respaldo a experiências de renovação social que já acontecem.

 

Pensar o espaço público, a cena pública hoje, passa pela recolocação das utopias. Recolocar a utopias significa tornar estas ideias plausíveis à sociedade. Um patrimônio do imaginário. Neste momento de desencanto, é preciso que as pessoas se reapropriem de sonhos, de possibilidades de mudança. E a Universidade tem um papel muito especial nisto.

 

Um exemplo prático. A Experiência da Lanchonete.com do Todd Lester. É um cientista social e ativista americano que comprou um bar num edifício treme-treme entre a Nove de Julho e a Rua Augusta, no centro de São Paulo. Qual foi a proposta : recuperar o bar, fazê-lo funcionar mas sem tirar o dono, o Tarcisio. A ideia era uma experiência de recuperar uma construção degradada, mas evitar o processo de gentrificação. Ou seja, quando o prédio fosse recuperado, se tornaria caro e as pessoas que lá vivem teriam de sair. O Todd captou recursos, trouxe para a cena do treme treme artistas e estudantes para viver e discutir a situação. E investiu no bar, mas sem mudar nada, só tirou o aluguel que o Tarcisio pagava para viabilizar o negócio. É uma ação transformadora. Mas é uma ação pequena, única em suas singularidades; de outro lado, ela faz parte de são Paulo. Ela é nossa cidade, precisa entrar numa identidade coletiva que compõe a cidade para todos. Assim como os arranhas-céus, a violência, o trânsito desenham o imaginário de SP, a Lanchonete.com também deve entrar neste imaginário.

 

E aí eu penso o papel da Universidade: contextualizar a Lanchonete na história da cidade, na vida da cidade. E vi como o Renato Cymbalista, do Outros Urbanismos, laboratório da FAU-USP, incorporou a ideia. Renato, aliás, que dirige uma das linhas editoriais da Annablume. E junto com seus alunos e outros professores começaram a mostrar ao próprio pessoal da Lanchonete e aos moradores do prédio a importância daquela experiência. E como? Falando do que é a gentrificação, falando da história da cidade. Enfim, contextualizando a experiência num cenário maior. Ajudando a Lanchonete a se ver e colocando a Lanchonete no imaginário paulistano. E aí a cidade não é mais só a cidade conservadora do Dória ou do Covas, não é mais só a cidade das grandes avenidas onde impera o automóvel, ou a cidade mesquinha dos Shopping Centers. Passa a ser isto e também a cidade de uns caras que se reúnem para tentar recuperar uma coletividade que vive num edifício precaríssimo, mas com o cuidado de evitar a gentrificação da área. E quando isto entra na cabeça das pessoas, que São Paulo é muito mais plural, que a vida é muito mais diversa, é sinal que virou um patrimônio do imaginário dos que vivem aqui.

 

Para não me alongar, queria dizer que embora a Universidade passe por toda esta crise atual, ela nunca teve tanta possibilidade de desempenhar um papel inovador em nossa sociedade. Precisamos disto e esta tela que gostaria de ajudar a pintar.

 

José Roberto Barreto Lins - editor

 

Texto produzido para o encontro Telaas, promovido pela professora Junia Barreto (UnB) na Livraria Cultura em outubro de 2018 pelos 50 anos de maio de 1968.

 
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