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A rede da mobilidade a pé

 

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A Rede da mobilidade a pé
Meli Malatesta
Formato: 16 x 23 cm, 2324 páginas
ISBN: 978-85-391-0937-1
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O abismo entre a realidade atual e a proposta de Meli Malatesta lança um grande desafio,
por Eduardo Vasconcellos


Caminhar sempre foi a forma universal de deslocamento das pessoas, mas os planos e projetos de transporte e trânsito nos países em desenvolvimento historicamente ignoraram o ato de caminhar.

O Brasil não fugiu à regra. Nas cidades brasileiras com mais de 60 mil habitantes (onde moram 70% dos habitantes urbanos) há muitos dados sobre o sistema viário de circulação de veículos e da sinalização em geral, mas não há dados sobre as calçadas da cidade. Nenhuma prefeitura sabe quantos quilômetros de calçada existem e quais são suas condições de qualidade e segurança. Em conseqüência, não há expertise técnica ou acumulação de conhecimento para tratar do tema, que é abundante no caso do estudo do transporte privado e do transporte público. Na nossa história, os especialistas em trânsito aprenderam os processos de definição da capacidade das vias de circulação de veículos e da sinalização correspondente, mas nunca foram treinados para dimensionar as calçadas para os pedestres e estudar os seus problemas específicos. Paralelamente, não se desenvolveu a tecnologia de construção e manutenção de calçadas, nem dos materiais mais adequados para uso. No âmbito das pesquisas dos comportamentos dos pedestres é escassa a disponibilidade de informações de qualidade; no que tange à quantidade de deslocamentos, a influência da engenharia tradicional eliminou as contagens dos deslocamentos a pé mais curtos que 500 metros, com a conseqüência de reduzir à metade a quantidade de quilômetros andados pelas pessoas nas cidades.


Este livro de Meli Malatesta é um dos poucos documentos disponíveis que relatam esta história negativa das políticas de mobilidade urbana no Brasil e propõem mudanças estruturais e operacionais. Analisando em detalhes a situação da cidade de São Paulo, Meli enfatiza a importância do andar a pé e os grandes problemas encontrados pelas pessoas, especialmente os de baixa renda, que não têm como pagar o custo do transporte coletivo e transitam em áreas onde é comum não haver calçadas. A autora também mostra que a maioria das pessoas que caminham requerem mais atenção, pois são crianças, jovens, e a população de renda e escolarização mais baixas. Resumindo vários estudos sobre a percepção dos caminhantes em relação às condições para andar, a autora mostra que os problemas que mais incomoda os pedestres são a existência de obstáculos ilegais na calçada, a largura exígua e o grande tempo de espera para atravessar um cruzamento semaforizado. Analisando a legislação sobre o tema na cidade a autora mostra que a sua existência não garante a qualidade do caminhar, havendo muitas infrações que prejudicam a circulação e a segurança dos pedestres.

Como exceção à regra, a autora faz um passeio muito interessante sobre os caminhos diferentes para os pedestres na cidade de São Paulo, representados não apenas pelo calçadão central inaugurado em 1976, mas pelos “caminhos ocultos” criados pelas galerias da área central, de grande uso pelas pessoas e que mostram que outra forma de organização do espaço público é possível.

Esta viagem permitiu à autora iniciar a reflexão sobre as ações que podem ser implantadas para melhorar o andar a pé. A partir de uma análise histórica cuidadosa sobre o surgimento do planejamento do uso dos espaços urbanos no mundo moderno, Meli Malatesta explora o conceito da “cidade sustentável”, buscando o espaço físico e político adequado aos pedestres. Neste caminho ela faz uma proposta radical, sugerindo que passemos a considerar a rede de mobilidade a pé das cidades, com embasamento legal e infraestrutura essencial, composta de grande número de atributos que garantam o seu funcionamento adequado. Adicionalmente, ela nos convida a analisar como as políticas públicas de mobilidade deveriam mudar para acomodar o andar a pé como participante essencial de qualquer sistema de mobilidade.

O abismo entre a realidade atual e a proposta de Meli Malatesta lança um grande desafio para todos que desejam condições mais equitativas no uso dos espaços urbanos.

 
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